A dengue é uma doença infeciosa viral transmitida por mosquitos do género Aedes, constituindo um dos principais desafios para a saúde pública em regiões tropicais e subtropicais. Nas últimas décadas, a incidência da doença aumentou significativamente em diversas partes do mundo, impulsionada pela urbanização acelerada, alterações climáticas, crescimento populacional, circulação internacional de pessoas e expansão geográfica do mosquito vetor. Atualmente, milhões de pessoas vivem em áreas de risco, tornando a dengue uma das arboviroses de maior impacto global.

Nos países africanos, incluindo Moçambique, a ocorrência de surtos tem despertado crescente preocupação das autoridades sanitárias, devido à elevada capacidade de disseminação do vírus e ao potencial de desenvolvimento de formas graves da doença. A ausência de tratamento antiviral específico torna indispensáveis as estratégias de prevenção, o diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado dos doentes, reduzindo o risco de complicações e de mortalidade.

Etiologia e transmissão

A dengue é causada pelo vírus da dengue, pertencente ao género Flavivirus e à família Flaviviridae. Existem quatro serotipos distintos, denominados DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4, todos capazes de provocar a doença. A infeção por um destes serotipos confere imunidade permanente apenas contra o mesmo tipo viral, permitindo que uma pessoa possa contrair dengue novamente por outro serotipo ao longo da vida. Em determinadas circunstâncias, uma segunda infeção por um serotipo diferente pode aumentar o risco de evolução para formas graves da doença. A transmissão ocorre principalmente através da picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti, considerado o principal vetor da doença. Em algumas regiões, o Aedes albopictus também pode participar na transmissão. Após alimentar-se do sangue de uma pessoa infetada, o mosquito adquire o vírus, que se multiplica no seu organismo antes de ser transmitido a outro indivíduo durante uma nova picada. O mosquito apresenta hábitos predominantemente diurnos, sendo mais ativo nas primeiras horas da manhã e no final da tarde.

A proliferação do vetor está intimamente relacionada com a existência de recipientes que acumulam água limpa e parada, como pneus, garrafas, vasos, baldes, caixas de água mal vedadas e outros objetos expostos ao ambiente. O crescimento urbano desordenado, a deficiência no abastecimento de água, a inadequada gestão de resíduos sólidos e as condições climáticas favoráveis contribuem significativamente para o aumento da população de mosquitos e da transmissão da doença.

Manifestações clínicas e complicações

O período de incubação da dengue varia geralmente entre quatro e dez dias após a picada do mosquito infetado. A doença pode apresentar desde formas assintomáticas até quadros clínicos graves com risco de morte. Nos casos sintomáticos, o início costuma ser súbito, caracterizado por febre elevada, cefaleia intensa, dor atrás dos olhos, dores musculares e articulares, fadiga acentuada, náuseas, vómitos e erupções cutâneas. Em muitos doentes, a intensidade das dores musculares e articulares levou à designação popular de "febre quebra-ossos".

Na maioria dos casos, a evolução é favorável após alguns dias de tratamento de suporte. Contudo, uma pequena proporção dos doentes desenvolve formas graves, caracterizadas pelo aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, perda de plasma, hemorragias, alterações da coagulação e comprometimento de múltiplos órgãos. A dengue grave pode provocar choque circulatório, insuficiência hepática, alterações neurológicas, dificuldade respiratória e falência multiorgânica, exigindo intervenção médica imediata. A identificação precoce dos sinais de alarme constitui um dos aspetos mais importantes no acompanhamento clínico. Dor abdominal intensa, vómitos persistentes, sangramentos espontâneos, dificuldade respiratória, sonolência excessiva, irritabilidade e diminuição da produção de urina podem indicar agravamento do quadro clínico e necessidade de internamento hospitalar.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico da dengue baseia-se na avaliação clínica, na investigação epidemiológica e na confirmação laboratorial. Em áreas onde ocorre transmissão ativa, a presença de febre aguda associada aos sintomas característicos levanta forte suspeita da doença. A confirmação pode ser realizada por métodos laboratoriais que identificam o vírus, os seus componentes ou a resposta imunológica do organismo, especialmente durante os primeiros dias de infeção.

O tratamento é essencialmente de suporte, uma vez que não existe um medicamento antiviral específico capaz de eliminar o vírus da dengue. A hidratação adequada constitui a principal medida terapêutica, contribuindo para prevenir complicações decorrentes da perda de líquidos. Nos casos ligeiros, recomenda-se repouso, ingestão abundante de líquidos e utilização de medicamentos para controlo da febre e da dor sob orientação médica. A utilização de medicamentos que aumentem o risco de hemorragias deve ser evitada sempre que houver suspeita de dengue. Os doentes com sinais de alarme ou manifestações graves necessitam de internamento hospitalar para monitorização contínua, reposição de fluidos por via intravenosa e tratamento das complicações. O reconhecimento precoce da gravidade e a assistência médica adequada reduzem significativamente a mortalidade associada à doença.

Prevenção e controlo

A prevenção da dengue depende principalmente do controlo do mosquito vetor, uma vez que a interrupção da transmissão reduz diretamente o número de novos casos. A eliminação sistemática dos criadouros representa a medida mais eficaz para diminuir a população de Aedes aegypti. A remoção de recipientes que acumulem água, a correta vedação de reservatórios, a limpeza periódica de calhas e a gestão adequada dos resíduos sólidos constituem ações fundamentais para impedir a reprodução do mosquito. As campanhas de educação em saúde desempenham um papel relevante na sensibilização das comunidades para a adoção de medidas preventivas permanentes. A utilização de repelentes, roupas que cubram a maior parte do corpo, telas em portas e janelas e outras formas de proteção individual contribuem para reduzir o contacto entre o mosquito e a população, especialmente durante os períodos de maior atividade do vetor.

A vigilância epidemiológica permite identificar rapidamente surtos e orientar as medidas de controlo implementadas pelas autoridades de saúde. Nos últimos anos, foram desenvolvidas vacinas destinadas à prevenção da dengue em grupos específicos da população, cuja utilização depende das recomendações das autoridades sanitárias e das características epidemiológicas de cada país. Apesar desse avanço, o combate ao mosquito vetor continua a representar a principal estratégia para reduzir a incidência da doença e proteger a saúde pública.

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